26 janeiro 2011

Boas Práticas Farmacêuticas em Alimentos

Por: Luís Fernando Brum- Farmacêutico(*).

Paulo Freire acredita que o conhecimento é construído de forma integradora e interativa. Não é algo pronto a ser apenas "apropriado" ou "socializado", que tem necessidade da memorização. Conhecer é descobrir e construir, não copiar.
Uma alimentação, quando adequada e variada, previne deficiências nutricionais, e protege contra doenças infecciosas, porque é rica em nutrientes que podem melhorar as defesas do organismo. Nutrientes são compostos químicos encontrados nos alimentos que têm funções específicas.
No Brasil há aproximadamente 67 mil farmácias/drogarias e são dotadas de, no mínimo um profissional farmacêutico. O aproveitamento dos estabelecimentos e dos profissionais, inseridos na comunidade, para promoção da alimentação saudável oportuniza uma singular ferramenta para prevenção e cura de doenças associadas a alimentação. Lembrando Hipócrates (400 A.C.) "Que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio".

Alimentação é um conjunto e uma variedade de questões e registros que a apresentam não somente como necessidade fisiológica, mas também como necessidade histórica, capacidade de desejo, memória e invenção ao enfrentar o cotidiano e lidar com amarras burocráticas para desafiar o entendimento técnico e reconstruí-lo dentro da realidade social de um Programa de Alimentação.
Saliento que ler a alimentação leva também a retecer o trabalho dos profissionais envolvidos, o seu papel e a sua ligação pedagógica que vai forjando o indivíduo, tratando de uma visão menos estereotipada das relações que estes estabeleceram entre sua atuação social e sua produção intelectual com o papel de alimentação saudável como pano de fundo.
A diversidade de meio cruzado a deficiências públicas de gerenciamento e educação, aliada a logística de abastecimento, cerceadas pela legislação, deixam muitas vezes de considerar a qualidade. Qual o resultado desta realidade? O descaso com a questão alimentar e nutricional na sua essencialidade, a qual entremeia a crítica e a angústia profissional ao deparar com o quadro de necessárias e emergentes mudanças, frente à prevalência do sobrepeso e da obesidade e apontando para uma epidemia mundial de doenças crônico-degenerativas, contraditoriamente com níveis de desnutrição em algumas regiões do País, resultado de uma cultura urbana na qual o papel da alimentação e nutrição deixa de ser muitas vezes tratado com a urgência e enfoque necessário.
A atitude recorrente de ignorar o fato de que o risco para doenças crônicas na idade adulta e qualidade de vida dos futuros cidadãos deste País, coloca em foco o papel do farmacêutico, como profissional de saúde que a população tem mais acesso (no mínimo Um profissional por farmácia/drogaria) e o desafio de como atender, o porquê atender e qual critério a ser adotado, para convencimento e estratégia adequada, baseando-se em critérios de saúde.
Notoriamente a grande dificuldade marca a falta de capacitação profissional, a diversidade de hábitos e culturas, o sentimento de “não saber fazer”, relacionados à importância da educação nutricional. A possibilidade de trazer para o espaço farmácia/drogaria, que necessita de revisão urgente, é o grande alento de gerir o controle social e a vontade profissional de mudar, pois não bastam leis e normas regulamentares, as mesmas têm que ser efetivas e reais, o que acarreta o estreitamento da nossa compreensão sobre o movimento de homogeneização de atendimento, embora a diversidades dos espaços e culturas sobre alimentação em um País tão plural.
Ao eleger o desafio de “alimentação e saúde” para os consumidores de farmácia e drogarias, os farmacêuticos encontram uma rota difícil, em que a estratégia de Assistência Farmacêutica desloca-se para como promover o impacto alimentar e nutricional, fronteira limiar de criação de hábitos e escolhas alimentares. Isso traz à discussão da capacitação e criação de guias alimentares, cruzadas a decisões do poder e fazer, na qual a formação universitária é pobre. Farmacêuticos e nutricionistas conscientes da importância da alimentação como instrumento de intervenção, talvez possam resolver múltiplos problemas, e levantar novas formas de reeducação, tornando-se parceiros profissionais que traçarão uma área própria de atuação e uma relação peculiar que vise reeducar para melhor expectativa de vida com vitalidade positiva. Farmacêuticos e nutricionistas deverão ser (re) conscientizados sobre a importância da adesão da reeducação alimentar, da necessidade de mudança de estilo de vida e principalmente de como proceder para adequada mudança de visão, além da responsabilidade dos programas de alimentação, ao mesmo tempo em que constroem a fundamentam para o seu entendimento.
Revisar o papel dos farmacêuticos enquanto possibilidade de germinação, de inauguração, de um novo começo, propiciando uma vida adulta com perspectiva de longevidade e com qualidade, evitando comprometimentos em longo prazo, sendo este o desafio maior.

Propósito do guia alimentar
Baseado no cenário epidemiológico atual (transição epidemiológica e nutricional), nas evidências científicas bem como na responsabilidade governamental em promover a saúde e incorporar as sugestões da Estratégia Global da Organização Mundial de Saúde (OMS), a idéia de guia pretende contribuir para a orientação de práticas alimentares que visam à promoção da saúde e a prevenção de doenças relacionadas à alimentação. As doenças conhecidas como Doenças Crônicas Não-Transmissíveis (DCNT) são: diabetes mellitus, obesidade, hipertensão, doenças cardiovasculares e câncer. O guia também deverá ser baseado na preocupação em relação a deficiências de minerais e vitaminas, bem como aumento da resistência imunológica relacionadas às doenças infecciosas.
A tendência à urbanização aliada ao desenvolvimento industrial e agropecuário vem ocasionando mudanças no padrão alimentar e na qualidade de vida das famílias e, por conseqüência, no padrão alimentar das crianças e adolescentes brasileiros. Desta forma soma-se à importância da vigilância da qualidade e da oferta alimentar agregada a sua composição, biosegurança, lembrando que fase escolar é preponderante para incorporação de hábitos alimentares saudáveis, mais que em qualquer época da vida, visto que estas modificações são, hoje, tratadas como problema de saúde pública, dentro do processo de transição nutricional.
O guia, montado em parceria com nutricionistas deve apresentar, de forma clara, a diretriz sobre alimentação saudável para todas as faixas, compreendendo uma alimentação adequada às necessidades dos indivíduos, nas diversas fases da vida.
As bases principais de uma alimentação saudável são compostas, por alimentos in naturas e produzidas regionalmente, valorizando a cultura alimentar local e que, muitas vezes, são mais acessíveis física e financeiramente para a população.
Os princípios trabalhados, sugiro, deverão ter uma abordagem integrada, referencial científico e cultura alimentar, referencial positivo, explicitação de quantidades, variações das quantidades, alimento como referência, sustentabilidade ambiental, abordagem multifocal - para todos, gestores e indústria, profissionais de saúde e família.
Os principais atributos de uma alimentação saudável são a acessibilidade física e financeira, sabor, variedade, cor, harmonia e segurança sanitária, em consonância com a conceituação de Direito Humano a Alimentação Adequada e Segurança Alimentar e Nutricional adotados pelo Brasil.
O nosso objetivo, enquanto profissionais de saúde na Assistência Farmacêutica, deve ser também de prevenir deficiências nutricionais e proteger contra doenças infecciosas e doenças crônicas não transmissíveis.

(*) Luís Fernando Brum – farmacêutico formado pela UFRGS, especialista em farmacotécnica homeopática pela AMHPR, Pós Graduando em Administração de Empresas pela FGV, Consultor Técnico em Legislação Ética e Sanitária do Escritório de Advocacia Valter Carretas de Curitiba/PR, Palestrante e treinador nacional sobre temas normativos, Coach Empresarial da empresa Brum Consulting e Diretor da empresa Actittud+.

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