27 março 2013

Sibutramina deve ficar no mercado, diz Anvisa


Área técnica da agência analisou remédio por um ano e atestou segurança. Decisão será votada em breve; controle do produto aumentou desde 2011.

A área técnica da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) indicou a permanência do medicamento emagrecedor à base de sibutramina no mercado brasileiro, após um monitoramento de um ano sobre os riscos do produto.
Em 2011, depois de um ano de debates, a agência impôs regras mais rigorosas para a venda do remédio. A validade da receita, por exemplo, foi reduzida de 60 dias para 30. A medida foi tomada em virtude da divulgação do maior estudo científico já feito sobre a sibutramina, com cerca de 10 mil pessoas em 16 países durante seis anos – foi concluído em 2009 –, que apontava que o medicamento aumentaria em 16% o risco de doenças cardiovasculares em pacientes com histórico prévio. Todos os indivíduos analisados tinham sobrepeso, obesidade e/ou diabetes tipo 2, além de fator de risco cardíaco.
O anúncio sobre a manutenção da venda da sibutramina foi feito na terça-feira (26) pelo diretor-presidente da Anvisa, Dirceu Barbano, durante uma audiência pública da Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados, em Brasília. Esse parecer ainda será votado em reunião da agência, provavelmente na semana que vem, mas dificilmente será rejeitado, disse Barbano.
Segundo ele, nos 12 meses em que o remédio foi avaliado, não houve evidências do aumento de efeitos colaterais e riscos à saúde pelo uso. Apesar disso, durante o período de análise, houve um aumento no número de notificações sobre eventos adversos em decorrência do consumo – de duas para cinco por mês –, mas a maioria delas foi de baixa ou média gravidade, o que, de acordo com o diretor-presidente da Anvisa, indica que a venda do medicamento nas farmácias pode ser mantida com segurança.
A agência identificou também um crescimento nas prescrições de sibutramina, em razão de a validade da receita ter diminuído. Embora tenha havido essa elevação, os números sobre uso se mantêm abaixo do padrão registrado antes de 2011, quando foram adotadas essas novas medidas e proibidos os emagrecedores à base de anfetamina (anfepramona, femproporex e mazindol). Isso revela, segundo a Anvisa, que não houve uma migração dos consumidores após a suspensão.
Ex-antidepressivo estimula saciedade
O farmacêutico Ivan da Gama Teixeira, diretor técnico e vice-presidente da Associação Nacional de Farmacêuticos Magistrais (Anfarmag), contou que a substância surgiu como um antidepressivo. "Viram que a diminuição do apetite era um efeito colateral e o remédio passou a ser usado como emagrecedor", explicou.

Contudo, o que a sibutramina faz no cérebro não é exatamente inibir o apetite, como é o caso dos remédios que foram proibidos. Na verdade, ela estimula a saciedade. "Na prática, o paciente fica satisfeito com menos comida", resumiu o endocrinologista Walmir Coutinho, pesquisador que participou da pesquisa Scout (Sibutramine Cardiovascular Outcome Trial), que analisou as 10 mil pessoas.
Segundo os especialistas, o medicamento age sobre dois neuro transmissores: a serotonina e a noradrenalina. Esses neurotransmissores funcionam entre os neurônios, levando informações de um para o outro. Nesse processo, geram a sensação de saciedade.
Normalmente, isso ocorre em um curto período de tempo, e os neurotransmissores retornam para dentro das células – o que é chamado de recaptação. O que a sibutramina faz é retardar esse processo, ou seja, a serotonina e a noradrenalina ficam por mais tempo fazendo a ligação entre os neurônios e deixam o indivíduo saciado.
Efeitos colaterais
Coutinho afirmou que os cientistas ainda estão tentando entender mais detalhes sobre o funcionamento da substância. Por isso, ainda não se sabe explicar por que ocorrem os efeitos colaterais, que, segundo ele, podem ser boca seca, taquicardia e insônia.

A pesquisa Scout registrou ainda que, entre pessoas que já têm alto risco de doenças cardiovasculares – como infarto e derrame –, esse risco aumenta. No entanto, ainda não há explicação de como isso acontece no corpo humano.